Histórias

Minha saudosa Mamãe

30/11/2019

O sonho de minha mãe era viajar para o Japão, sua terra natal. Rever onde nasceu, rever a família, andar por aqueles campos que deixara para trás quando viera para o Brasil em 1933. E já havia se passado mais de  meio século sem que o seu sonho pudesse ser concretizado. Tinha esperança,  quem sabe um dia, pensava consigo. 

Findava o inverno que naquele ano de 1967 fora mais ameno, com pouca geada. Morávamos em Rondon Paraná. Para a alegria de Mamãe, recebemos a visita de sua irmã, minha tia, que viera do Japão para visitá-la e trouxera muitos presentes para nós, membros da família. Eu ganhei uma linda sombrinha florida. 

Minha tia se vestia com esmero, usava meia fina, sapatos novos e bonitos durante a sua estada em nossa antiga casa. Acompanhou por vários dias a rotina de minha mãe, acordando cedo, observando fazer café , chaleira fumegando no fogão à lenha e à pó de serra, minha mãe tratando galinhas, porcos, cuidando da horta, pomar, costurando, remendando roupas, preparando o almoço, o jantar, esquentando a água do ofurô. Lembro-me que mamãe era mais magra que minha tia, mamãe de rosto mais afinado, titia de rosto redondo. 

Penso que titia comparou a sua vida com a de mamãe e teve pena. Chorou ao se despedir e quis dar muitas roupas suas para mamãe até o seu casaco de peles. Mamãe  dizia que não necessitava de nada, que lá não fazia tanto frio. De tanto insistir aceitou só o casaco de peles, embora soubesse que nenhuma ocasião haveria para usar tão sofisticada vestimenta. Passados pouco mais de dois anos, havíamos mudado para São Paulo, Santo André,  Bairro Campestre no início da década de 70. 

Naquele dia Mamãe acordou cedo como de costume, sentou-se em frente do espelho de sua penteadeira e ao olhar para a sua imagem, viu nele refletido o rosto de sua irmã. Admirada pensou: como posso estar vendo a mana no espelho? Sou diferente dela, pois o meu rosto é mais fino e sou mais magra! Fitou por mais algum tempo e aquela imagem desvaneceu-se por completo e via agora a sua imagem ali. Riu de si mesma e atribuiu àquela visão uma imaginação por demais fértil. Naquele dia anotou em seu diário escrito em japonês: ao olhar hoje cedo no espelho, vi o rosto de minha mana que mora no Japão.

Dois meses depois mamãe recebeu uma carta de um parente do Japão, comunicando a morte de sua irmã, no dia  tal e tal...Havia falecido a tia que nos visitara lá na cidade de Rondon, Paraná. As cartas demoravam a chegar pois vinham via navio. Mamãe apressou-se para ver o seu diário e nele constatou que a data da morte de titia no Japão, coincidia com a data em que se olhara no espelho e vira refletida a imagem do rosto de sua irmã.
 

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Alice Yamauchi Saito

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